Opinião • Postado em 03-07-2014

BUGRES DE OLHOS AZUIS - 1

Onofre Ribeiro

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Em 1980, no primeiro censo de Mato Grosso depois da divisão que criou Mato Grosso do Sul a partir de 1979, Mato Grosso tinha 1 milhão 139 mil habitantes. Em 1970, tivera 598 mil. Com  as fortes ondas de migração dos anos 1970 na ocupação da Amazônia no projeto federal “Integrar pra não Entregar”,  os habitantes dobraram.

No censo de 1980 entrevistei para a revista “Contato” que editávamos em Cuiabá, o delegado do IBGE no estado, professor Nelson Pinheiro, já falecido. Perguntei-lhe: “que tipo de habitante o IBGE espera encontrar neste censo em Mato Grosso?” Ele respondeu: “um bugre de olhos azuis”. Referia-se à mistura que já estava em andamento do perfil mais comum de mato-grossenses morenos, com migrantes de olhos azuis, especialmente vindos do Paraná, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, de São Paulo e de Minas.

Em 1990, tornei a entrevistá-lo, já aposentado, sobre o mesmo tema e repeti a mesma pergunta. Ele me contou que seu filho, “bugre como eu, casou-se com  uma moça vinda de Santa Catarina, descendente de pais alemães e italianos q que já tinha netos bugres de olhos azuis”.

Trago este assunto, porque desde aquele distante 1970 quando os recém-chegados eram chamados de “paus rodados”, até os dias de hoje, passaram-se 40 anos, e os bugres de olhos azuis são uma absoluta realidade em Mato Grosso. Casaram-se sulistas entre eles, com mato-grossenses, etc.etc, e encheram o estado de “bugres dos olhos azuis”. Tanto, que aquela população de 1.139 mil habitantes hoje passa dos 3 milhões. A maioria nasceu aqui mesmo cruzando gentes de todas as bandas.

Um dia, em 1994,  viajando de carro  pro nortão e conversando com o então deputado federal Rodrigues Palma, ilustre cuiabano de longa história, tocamos nesse assunto e discutimos a possibilidade de um dia no futuro os bugres de olhos azuis chegarem à política. Ele não acreditou no primeiro momento, mas depois concluímos que seria inevitável. Naquela eleição elegiam-se o governador Dante de Oliveira, cuiabano, Jonas Pinheiro e Carlos Bezerra ao Senado, ambos mato-grossenses.

Em 2002 elegeu-se Blairo Maggi governador, gaucho. Dante já trouxera como vice em 1998 Rogério Salles, paranaense e agricultor residente em Rondonópolis, que chegou a governador por sete meses em 2002 no lugar de Dante.

Blairo Maggi reelegeu-se e depois elegeu-se senador em 2010.

Em 2014 com a economia fortemente ancorada no agronegócio, o setor foi consultado todo o tempo de montagem de chapas de governador, vice e de senador. São todos bugres de olhos azuis, nascidos ou consolidados em Mato Grosso. Mesmo os não nascidos no estado, estão fortemente arraigados e são mato-grossenses por opção de vida pessoal, familiar e de negócios.

Difícil hoje separar os mato-grossenses e os bugres de olhos azuis. Todos já são naturais de Mato Grosso e estão presentes em todos os setores, incluindo a política. Voltarei ao assunto amanhã.

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso.

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