Opinião • Postado em 21-11-2018

‘Aqui, só eu toco’

Dulce Figueiredo

/ Divulgação assessoria

Como falar sobre abuso sexual com as crianças? Costumo responder que essa conversa só precisará acontecer se a família não construir valores cotidianos sobre a importância, o cuidado e o respeito pelo corpo.

É possível agir preventivamente, ao construir, no dia-a-dia, desde muito cedo, uma relação saudável da criança com o corpo. O primeiro passo é nomear todas as partes, inclusive as íntimas, falando sobre suas funções, cuidados e higiene de forma aberta e clara.

A cada faixa etária ampliamos as informações sobre as funções e consequências da falta de cuidados e carinho com o corpo. É muito importante validar o desejo da criança de não receber carinho de pessoas estranhas, amigos da família ou parentes.

Assim, ela saberá que pode dizer não quando se sentir constrangida, envergonhada ou com dor durante um carinho. As crianças não sabem diferenciar carinhos saudáveis de carinhos abusivos se não puderem exercer e exercitar esse direito de escolha.

Nós, brasileiros, somos muito calorosos nos contatos interpessoais e, muitas vezes, ensinamos e até mesmo obrigamos as crianças a aceitarem carinho de outros adultos sem consultá-las. Assim, as crianças ficam confusas quando os pais as orientam a dizer não para carinhos abusivos.

É muito difícil para uma criança perceber a intenção por trás do carinho de um adulto. Seja direto e objetivo ensinando sua criança a não permitir que outros vejam ou toquem suas partes íntimas e que, por sua vez, ela não toque nas partes do corpo do outro.

A regra “aqui, só eu toco” ajuda a criança a estabelecer um limite claro para si e para o outro. Ensine ainda seu filho ou filha a perguntar a um adulto de confiança, sempre que tiver dúvidas, sobre o comportamento de determinada pessoa.

A família deve construir com a criança um círculo de confiança, entre ela e os adultos com os quais possa contar, quando precisar perguntar ou dizer algo. Nesse círculo deve haver outras pessoas de confiança além dos pais, pois muitas vezes o agressor ameaça tirar a vida dos pais da criança e será a essas pessoas que ela poderá pedir ajuda.

O segredo é a tática usada pelos agressores, dessa forma, diferencie segredos bons de segredos maus. O segredo que causa tristeza, ansiedade, medo não é bom e deve ser contado para alguém do círculo de confiança. Um segredo bom causa alegria, expectativa, como uma festa surpresa.

Os agressores são geralmente pessoas próximas da família que usam estratégias de aliciamento para ganhar a confiança da criança, entre elas, dar presentes (balas e objetos) e também pedem segredo. Então, a regra em casa deve ser contar sempre para alguém do círculo quando uma pessoa lhe pedir para guardar segredos, oferecer presentes, balas, lembrancinhas ou tentar ficar a sós com ela.

Uma em cada cinco crianças é vítima de violência ou abuso sexual, não importando raça, classe social, poder aquisitivo ou gênero. Os principais agressores são da própria família (pai, padrasto, tio, irmão mais velho, avô), amigos próximos ou profissionais encarregados da educação e/ou formação da criança ou que estejam nesses ambientes. A família deve ficar atenta a qualquer estória que a criança conte, mesmo que use personagens infantis para exemplificar, muitas vezes é mais fácil contar sobre o abuso dessa forma. Então, atenção se de repente o ‘lobo mau’ tocar alguma parte íntima da ‘Chapeuzinho Vermelho’, porque pode ser um pedido de ajuda.

Quando posso iniciar esse processo de orientação quanto ao abuso sexual com meus filhos? A regra “aqui, só eu toco” pode ser introduzida a partir do momento em que ela esteja apta a fazer sua higiene pessoal, sem assistência direta dos pais.

Como atualmente pais e filhos convivem cada vez menos em função do trabalho, é necessário criar um momento diário para troca de informações sobre o dia de cada um. A criança deve ser incentivada a dizer com quem esteve e o que fizeram juntos, uma estratégia consciente para o reforço de vínculos, no círculo de confiança.

Fique sempre atento, pois esta situação é muito frequente e traz muitos prejuízos ao desenvolvimento da criança, gerando traumas difíceis de serem apagados. Nos relacionamentos familiares, troque silêncio por diálogo; medo e tabu por construção de conhecimento e amor pelo próprio corpo.

Dulce Figueiredo, psicóloga com 24 anos de experiência e pedagoga pela UFRJ, especialização em terapia de família sistêmica, MBA Gestão de Recursos Humanos,@psicologadulcefigueiredo, dulcefig@gmail.com

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