Opinião • Postado em 30-06-2014

AGRIBUSNESS- SETOR SUCROALCOOLEIRO

Ovídio Girardello

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Representantes do setor sucroalcooleiro alertam para o fato de que estão passando pela pior crise da história. O alerta dá conta de que nos últimos cinco anos 44 usinas fecharam suas portas enquanto 33 entraram em processo de recuperação judicial e outras 10 não irão moer na presente safra. Diante deste quadro caótico corre-se o risco de, em pouco tempo, os carros flex serem apenas uma lembrança. É bem verdade que o Governo Federal, preocupado com a situação, vem procurando dar suporte, especialmente, elevando a mistura de  etanol à gasolina, passando para 6% ainda agora em julho e 7 % em novembro. Estas medidas, porém, serão paliativas já que o problema é muito mais grave, especialmente, por que o setor está descapitalizado e não possui recursos para investir em melhoria na adubação das lavouras e muito menos para investir em renovação de máquinas e equipamentos.

O grande problema encontra-se na instabilidade constante nos preços do etanol e açúcar, tanto no mercado interno quanto nas cotações internacionais. O Governo Federal, preocupado com a situação vem investindo 3,7 bilhões em pesquisas buscando novas alternativas para o setor, conforme informou o gerente do departamento de biocombustíveis do BNDS, Arthur Milanez. Hoje, já estão em operação algumas usinas que produzem biocombustível de 2ª geração com o uso do bagaço, folhas e cascas de cana na geração de etanol. A RAIZEN, empresa do setor, instalou em Piracicaba- SP, usina experimental. Caso o experimento produza os resultados esperados a mesma empresa deverá instalar no Centro-Sul outras oito unidades, produzindo então 150 milhões de litros de etanol. Outro experimento, que já é bem sucedido, é a usina São Francisco, instalada em Sertãozinho – SP, que a partir do bagaço, folhas e casca de cana vem produzindo cera de bagacilho que é utilizada na produção de velas e proteção de frutas. Esta usina produz, ainda, levedura utilizada na elaboração de concentrados para ração animal. O diretor industrial da São Francisco informou, em recente entrevista, que se não fossem esses subprodutos a usina estaria quebrada.

Como se vê, a crise não é totalmente ruim. Está obrigando os empresários do setor a buscarem novas alternativas com a vantagem de um melhor aproveitamento da matéria prima. Persistindo o quadro atual, teremos significativa redução da atividade canavieira. Não bastasse a questão de preços baixos no açúcar e etanol, neste ano agrícola, a falta de chuvas não permitiu o bom desenvolvimento das lavouras. Somando-se a isso a falta de recursos para o agricultor investir em adubação e tratos culturais trouxe como resultado final uma redução que vai de 30% até 60% na produtividade da cana no Centro-Sul do País.

No Mato Grosso, em início de  junho, a APROSOJA (Associação dos Produtores de Soja e  Milho de Mato Grosso) discutiu a viabilidade de instalação de usinas de produção de etanol a partir de cereais. As usinas, que já industrializam milho e sorgo na produção de etanol, em Mato Grosso, no período da entressafra da cana, vem obtendo bons resultados, embora o volume utilizado ainda seja muito reduzido.  O Estado deve alcançar a produção de 15 milhões de toneladas de milho na presente safra e poderá alcançar  35 milhões de toneladas nos próximos 10 anos. Como as cotações internacionais, especialmente na bolsa de Chicago estão muito baixas o preço pago ao produtor mato-grossense está longe de cobrir os custos. Na sexta-feira as cotações ficaram abaixo de US$ 4,40 ao bushel, portanto,  pouco mais de US$ 10,00 a saca para o produto FOB porto. Diante deste quadro só resta  uma alternativa ao produtor mato-grossense: investir na industrialização do produto, especialmente na produção de etanol e farelo proteico.

Segundo o senhor Ricardo Giannini, diretor da Céleres Consultoria, que produziu estudo sobre a viabilidade econômica para instalação de usinas no Mato Grosso há disponibilidade de tecnologia, mas faltam recursos, especialmente financiamentos públicos. Ainda, quando são encontrados recursos, as taxas de juros elevadas, algo em torno de 10% ao ano, indexados ao dólar, tornam proibitivo o empreendimento. Por fim, mesmo que se viabilizasse o processo produtivo, ainda assim, fica-se diante do problema de distribuição do combustível, diante das distâncias até os centros consumidores no sudeste e sul do País.

Somente planos sérios de desenvolvimento, que envolvam o processo produtivo e de comercialização, poderão tornar a atividade sustentável, favorecendo, especialmente, o consumidor, pois que se a oferta crescer com certeza haverá maior equilíbrio entre esta e a demanda, tornando os preços mais civilizados. Neste processo de viabilização da atividade há que se repensar, com seriedade, a questão tributária brasileira.

 

Ovídio Girardello

Advogado-filósofo-pós-graduado em comércio exterior.

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